Evento reuniu especialistas e a base da FETEC para debater avanço do adoecimento mental e postura negacionista dos bancos
A Alesp, Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, sediou, na tarde desta quinta-feira (31), uma audiência pública para debater a saúde mental dos trabalhadores de bancos e instituições financeiras.
Com o tema “Sob Pressão: o desafio da saúde mental no trabalho bancário”, o evento foi organizado pelo mandato do deputado Luiz Claudio Marcolino (PT), numa iniciativa da FETEC-CUT/SP e do Seeb SP, contando com a participação de especialistas e bancários de toda a base da federação.
Ao abrir a audiência, Luiz Claudio Marcolino destacou que o crescimento dos afastamentos por questões de saúde mental não se restringe à categoria bancária. Segundo ele, a pressão excessiva por metas, a falta de perspectiva de carreira, a desvalorização salarial e a precarização estão entre os principais fatores que contribuem para esse cenário. “Queremos promover esse debate com especialistas para dialogar com o Ministério do Trabalho e avançar na construção de uma legislação que proteja os trabalhadores, garantindo condições que priorizem sua saúde ao longo da carreira”, afirmou o parlamentar.
“A dignidade do ser humano não pode ser violada no ambiente de trabalho”, afirmou Ana Lúcia, secretária-geral da FETEC-CUT/SP. Segundo ela, a violência praticada nas agências físicas tem se repetido nas plataformas digitais, com bancários sob pressão constante por metas e medo de demissões. “Há quem ande com atestado na bolsa, mas teme apresentá-lo para não ser dispensado”, relatou
A advogada especialista em Direitos Humanos, Maria Leonor Jakobsen, destacou que a OMS e a OIT lançaram diretrizes para combater a violência no ambiente de trabalho, a exemplo da Convenção 190. Segundo ela, em 2019, 15% dos adultos em idade ativa já sofriam os efeitos dessa violência laboral.
‘’A dignidade humana deve ser preservada no ambiente de trabalho. No entanto, a Consulta Nacional revela um crescimento alarmante de adoecimentos na categoria bancária, principalmente devido às metas abusivas. Mesmo diante desse cenário, os bancos resistem ao diálogo’’, disse a advogada destacando que o assédio e pressão por metas tornaram-se, de forma perversa, parte estrutural do modelo de gestão das instituições financeiras.
Ela também criticou a subordinação dos médicos do trabalho às empresas, o que, na prática, impede que o trabalhador tenha autonomia sobre seu próprio corpo. “Enquanto a legislação não avançar, o trabalhador seguirá refém de um sistema que viola sua dignidade e compromete sua permanência no mercado de trabalho”, afirmou.
Casos extremos
O modelo de gestão adotado pelos bancos, baseado em metas abusivas, vigilância por geolocalização e uso de softwares de monitoramento foi apontado por Mauro Sales, secretário de Saúde da Contraf-CUT. “É sofrimento com método”, afirmou.
‘’Trata-se de um sistema técnico e programado para controlar, adoecer e expulsar. O setor lidera os afastamentos por doenças mentais registrados no INSS, com uso elevado de medicamentos controlados chegando a casos extremos de suicídio’’.
Mauro avalia que a revisão da NR-1 incluiu o risco psicossocial, mas de forma superficial. ‘’O foco continua nas consequências, não nas causas, e o papel dos sindicatos foi enfraquecido. Um avanço seria garantir aos sindicatos mais poder de fiscalização sobre a saúde no trabalho’’.
Rosângela Lorenzetti, secretária de Saúde da FETEC, afirmou que a expectativa é de que a audiência gere desdobramentos concretos junto ao MPT, aos Ministérios do Trabalho, Saúde e Previdência.
“Esse debate precisa chegar à sociedade. Essa forma de gestão é responsável por uma verdadeira epidemia na categoria bancária, porque adoece, persegue e destrói vidas.”
Arcabouço Jurídico
Patrick Maia, procurador do MPT, ressalta que as audiências entre bancos e trabalhadores frequentemente resultam em sofrimento e frustração. ‘
’Apesar das dificuldades enfrentadas, existe um extenso arcabouço jurídico que pode embasar ações em defesa dos trabalhadores, incluindo tratados internacionais de direitos humanos, como as convenções da OIT, a nossa Constituição Federal, a Constituição do Estado de São Paulo, a CLT, as Normas Regulamentadoras (especialmente a NR 17) e a atuação da CIPA.
‘’É crucial que este conjunto legal seja plenamente invocado, apoiado por provas documentais e periciais robustas. O NTEP, que presume a relação entre doenças e o trabalho, raramente é acionado, e o INSS muitas vezes não o reconhece. Mesmo quando a CAT é emitida pela empresa, as perícias frequentemente resultam negativamente. Portanto, um processo técnico, detalhado e bem fundamentado é essencial’’.
Além disso, o procurador destaca a Convenção da ONU que trata da erradicação da tortura, definindo-a como qualquer procedimento deliberado que cause sofrimento físico ou psicossocial. ‘’A proibição do sofrimento como método não é apenas uma demanda trabalhista, mas um direito humano fundamental’’.
Cenário de sofrimento
Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários, denunciou a recusa dos bancos em reconhecer que os transtornos psicossociais enfrentados pelos trabalhadores são resultado de um modelo de gestão baseado no assédio moral e na pressão por metas abusivas. Segundo ela, a Consulta Nacional de 2025 revelou um cenário de sofrimento mental generalizado, com bancários adoecendo em silêncio ou suportando abusos para manter seus empregos. ‘’As pessoas querem trabalhar com dignidade, com tranquilidade, mas o ambiente é realmente adoecedor’’.
A médica e pesquisadora da Fundacentro, Maria Maeno, afirmou que o combate ao adoecimento dos trabalhadores exige o mesmo compromisso político que o presidente Lula demonstrou ao enfrentar a insegurança alimentar, retirando o Brasil do mapa da fome. Para ela, a saúde do trabalhador deve ser reconhecida como uma prioridade na agenda de saúde pública, com ações efetivas para prevenir o sofrimento e garantir condições dignas de trabalho.
Construção coletiva
O deputado Luiz Claudio Marcolino afirmou que o grupo vai acionar a Secretaria-Geral da Presidência da República e também a Febraban, em articulação com os ministérios da Saúde, Trabalho e Previdência, para buscar uma solução definitiva que reconheça o adoecimento como acidente de trabalho. ‘’Essas audiências são fundamentais por ampliarem a força e o alcance da luta em defesa dos trabalhadores’’, concluiu, destacando que seu mandato está ao lado da categoria bancária nessa construção coletiva.
Confira mais detalhes da audiência também nas redes sociais da FETEC em @fetecsp


