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88% das negociações coletivas de trabalho alcançam aumento real, mas com juros baixos seriam melhores

Cerca de 88% das 759 negociações coletivas de trabalho com data-base em maio até 6 de junho deste ano, conquistaram reajustes acima da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumido (INPC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em apenas 11% dos casos os resultados ficaram iguais ao INPC e apenas 0,5% estiveram abaixo. Os dados são do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), que divulgou o levantamento besta quarta-feira (21).

Desde 2018, quando o Dieese passou a acompanhar os acordos e convenções coletivas do Mediador, somente em cinco ocasiões o percentual de reajustes acima da inflação ultrapassou a marca de 80%.

Para o técnico do Dieese, Luís Ribeiro, os resultados estão associados a três fatores: queda da inflação, que acumula retração de 2,95% neste ano, a mobilização de sindicatos para repor as perdas acumuladas durante a pandemia e o aumento do salário mínimo.

Outro fator determinante para a maioria dos reajustes salariais ficar acima da inflação foi a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de em fevereiro, de elevar o salário mínimo para R$ 1.320, maior aumento real desde 2012. Em maio Lula encaminhou o Projeto de Lei 2385/23 para retomar a política de valorização do salário mínimo a partir de 2024, que havia sido extinta pelo governo Bolsonaro.

“Muitas categorias têm vencimentos próximos ao mínimo e quando há aumento, isso empurra os salários também para cima”, explica Ribeiro.

O Secretário de Relações de Trabalho da CUT Nacional, Ari Aloraldo do Nascimento, aponta a importância da mobilização dos sindicatos para avançar nos salários, mas ressalta que a situação poderia ser ainda melhor se o Brasil convivesse com juros menores O Banco Central anunciou na quarta-feira a manutenção da taxa de juros, a Selic, em 13,75%.

“A eleição do presidente Lula criou um ambiente favorável para a economia, mas se taxa de juros não estivesse nesse patamar, teríamos ambiente ainda mais favorável para fazer as negociações coletivas, afetadas diretamente pela falta de capacidade de investimentos”, diz.

“As empresas evitam tomar dinheiro emprestado, diante das incertezas de poderem honrar seus compromissos. Portanto, os juros acabam por imobilizar a capacidade produtiva, porque, nesse cenário, elas não ampliam a produção, não contratam mão-de-obra e isso tem sido a grande dificuldade de avançarmos ainda mais”, acrescenta o dirigente.

Indústria lidera, mas com ressalvas

Os melhores resultados nas negociações foram no setor da indústria, com ganhos acima da inflação em 76,2% dos casos. Índice semelhante ao do setor de serviços, que atingiu o aumento real em 75,5% das campanhas salariais.

O comércio foi o segmento com maior dificuldade de atingir esse patamar, com 52,8% das negociações encerradas acima dos índices inflacionários.

O Secretário-Geral da Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM), Renato Almeida, destaca que das organizações associadas à entidade, 93% tiveram ganho real. Mas há grande preocupação por conta das políticas adotadas pelo Comitê de Política Monetária (Copom).

“A maior parte da venda de veículos é feita por financiamento, isso representa 70% das negociações, e uma taxa de 13,75% torna inviável comprar carro financiado. O governo se esforçou para ajudar a fazer a indústria automotiva a crescer, mas o momento nos preocupa, porque a medida é temporária e se não derrubarmos a taxa de juros, não tivemos linha de financiamento com prazos maiores, isso refletirá na produção e irá gerar desemprego”, explica.

Atuação conjunta

O temor se justifica no desempenho econômico de cada segmento. O Produto Interno Bruto (PIB) da indústria cresceu 1,9% no 1º trimestre de 2023, na comparação interanual. Resultado oriundo principalmente das indústrias extrativas e do segmento de eletricidade, gás, água e esgoto. Já a indústria de transformação e da construção registraram quedas na comparação com o último trimestre do ano passado.

Para o metalúrgico, as mudanças demandam políticas de longo prazo com apoio de todos os setores da economia, inclusive do Banco Central. Iniciativas como o programa Desenrola Brasil, lançado neste mês e que prevê beneficiar 70 milhões de pessoas endividadas, são importantes, mas não conseguirão reaquecer a economia e destravar linhas de crédito sem apoio de outros segmentos.

“A redução da taxa de juros deveria ser uma meta a perseguir como forma de colaborar para atenuar esse cenário ruim. Além disso, linhas de crédito mais baratas deveriam ser criadas urgentemente, de forma a aliviar as famílias. O programa ‘Desenrola’ é um sinal positivo, mas reverter o processo requer um plano de médio e longo prazos, com política monetária adequada e uma política industrial robusta que reconfigure a rota da produção industrial brasileira. Precisamos focar na indústria de transformação, considerando as diretrizes do Plano Indústria 10+, elaborado pelo movimento sindical e já apresentado ao novo governo eleito”, conclui.

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